sexta-feira, 24 de junho de 2011

A visão de uma cega

Gosto muito de observar as pessoas, mas prefiro quando é rápido, quando apenas a primeira e pequena impressão fica registrada. Faço isso quando pedalo pelas ruas de Promissão, a minha pequena e pacata cidade do interior do estado de São Paulo, nas tardes quentes de sábado, quando vejo todos fora de suas casas, sentados em suas cadeiras de varanda, observando quem passa, enquanto conversam sobre futebol ou televisão.

E foi numa dessas pedaladas que eu vi uma cena comovente: uma menina cega tentando achar uma bola em um pequeno terreno baldio com mato alto, em frente à locadora Center, na rua ao lado da casa do meu avô. As crianças que estavam por perto zombavam dela, mas ela parecia não se incomodar. Só queria saber de encontrar a bola.

Mas enquanto ela não dava a mínima, eu me importava. Parei a bicicleta na esquina. Naquele momento, eu apenas espreitava o que estava acontecendo, segundo após segundo, minuto depois de minuto.

E depois desses longos poucos minutos, a menina encontrou a bola e estendeu-a ao menino, que parecia o líder do grupo. Mas ele, junto de sua turma, apenas ignorou-a, deixando-a parada na calçada, com suas mãos estendidas, segurando delicadamente, o que para ela, parecia um tesouro.

Após algum tempo, a menina percebeu que estava com suas mãos esticadas para ninguém, falando sozinha. Sentiu vergonha, sentiu medo. Ela correu, correu intensamente, tão intensamente que tropeçou em minha bicicleta, arremessando-se para frente.

Ela só percebeu minha presença quando fui ajudá-la a se levantar. Mas ela foi rude. Deve ter pensado que era alguma peripécia dos garotos daquela turma, e eu, um deles. Mas quando lhe disse que só estava querendo ajudar, ela desabou a chorar. Comparada à Alice, daquele longínquo País das Maravilhas, no qual, com certeza a menina não vivia, ela ganhava de lavada, literalmente.

Abracei-a e deixa-a chorar em meus braços, pelo tempo que se passou, enquanto o crepúsculo anunciava a chegada da noite. Fechei os olhos e disse-lhe exatamente isso:
“Coloque sua mão em meu rosto, sinta como meus olhos estão fechados. Agora, estou na mesma escuridão que você! E com a chegada da noite, tudo se torna mais perto do preto que você vê”.

Ela assim o fez, ainda soluçando, depois de tantas lágrimas derramadas. Após alguns segundos, ela me diz: “Não é bem assim e você sabe. É só você abrir os olhos, e verá o rosto de sua família, a beleza de uma pintura, a grandiosidade da natureza, mas eu acordo todos os dias, como se ainda fosse noite”.

Eu não tinha mais o que argumentar. Apenas continuei de olhos fechados, rezando para ela acreditar, no que nem eu mesmo acreditava.

Um comentário:

  1. “Coloque sua mão em meu rosto, sinta como meus olhos estão fechados. Agora, estou na mesma escuridão que você! E com a chegada da noite, tudo se torna mais perto do preto que você vê”.

    (tá, eu qse chorei *OOOOOOO* mt mt bom mesmo Lip !

    ResponderExcluir